Nem consigo perceber a
razão por que esqueci o dia 25 de Maio, um dia tão importante em que (milhões, cada vez menos) de europeus foram obedientemente depositar o seu voto para a eleição do Parlamento Europeu.
Estou que nem posso. Eu
que cumpri o desejo de reflexão obrigatório pela Lei do meu País (ainda digo
meu mas não tenho a certeza) e apesar da invasão de Lisboa pelas hostes
futebolísticas do Real e do Atlético de Madrid que trouxeram um pouco de
alegria a este povo cinzento, e que pelo seu entusiasmo fizeram tremer o irrevogável
e valente Ministro Portas temendo pela sua comemoração da revolução de 1640, não deixei de
analisar a importância das eleições e seguindo a recomendação solene do meu (?)
Presidente da República, pessoa que tanto prezo e respeito, fui depositar o meu
voto, com a confiança de que o futuro se jogava naquele dia.
Procurei nas listas o meu
partido e, ou por estar febril de entusiasmo ou por uma amnésia repentina não o
encontrei. Logo votei em branco mas ainda não me libertei do peso de consciência
por ter contribuído para a queda do império Europeu.
E depois fiquei horas e
horas pendurado nos serviços de informação, adormeci a ouvir falar os analistas
de serviço, justificando as razões porque, a queda do ideal Europeu se começara
a desenhar. Para mim e para todos os que se sentem defraudados pelo rumo que a
Europa tomou, a enorme abstenção dos eleitores foi o dobre a finados dum sonho que
morreu e que deixou ferida uma geração.
Valerá a pena continuar
um caminho que só tem um sentido, o sentido da perdição?
Na dúvida e proponho que se oiça o Requiem, numa criação do poeta e cantor Leo Ferré. Vale a pena, acreditem.
Rebentam os foguetes. O País reviveu o ano de 1640, dia primeiro de Dezembro, dia da Restauração.
Naquele longínquo dia, o traidor e colaborador do ocupante estrangeiro, o odiado Miguel de Vasconcelos foi atirado pela janela do Palácio que ainda hoje é marca da cidade de Lisboa e que pelo feito recebeu o nome de Restauradores.
Tinha razão o irrevogável
Paulo Portas ao comparar o dia de hoje, àquele pedaço da nossa história coletiva. Mas, respeitando-a, alguém teria que ser expulso pela janela ou por uma porta, a soco ou a pontapé. Não sei quem foi, mas sei quem eu gostaria tivesse sido. Todavia hoje é dia de festa e não obstante a dúvida que persiste, sinto uma alegria tão grande que só é ofuscada pelo
orgulho de ser Europeu, de segunda ou terceira não importa. Somos o exemplo do
sucesso, o exemplo a dar a todo o mundo e que só foi possível porque tivemos um
Governo obediente e tenaz, e um povo sereno e apalermado e a sorte de termos
como guia, um homem providencial, um Presidente que nunca iremos esquecer!!!
Dando uma espreitadela
pelos órgãos de informação podemos constatar que a nossa felicidade é motivo de
satisfação de todos os Povos que, na beira do precipício, hesitam. Façam como
nós, caramba, fechem os olhos e deem o passo em frente. Lá no fundo estão mãos
de banqueiros, de agiotas, de políticos incapazes, de agências de notação
financeira, todos unidos prontos a negociar a salvação.
What a
happy day!
The
officers charged by our friends, the European Commission, The European Central
Bank and the International Monetary Fund, the TROIKA, who teach us the way to find the road
to freedom and happiness, deserves our very deep consideration. Many thanks and,
sincerely we are sure that, soon or later, everyone will be judged by the
history of the European mistake.
What a
happy day!
Now we can see many
citizens with brand new cars, imported from Germany, of course, with comfortable
bank accounts, domiciled at any offshore paradise. Thanks to the economic and financial lessons, they are, at last, truly Europeans.
Perante o sucesso do
programa de ajuda financeira quem se irá lembrar dos custos?
- Serão os mais de
trezentos mil novos emigrantes, na sua grande maioria jovens qualificados
convidados a deixar o País dos seus antepassados?
- Será a vida de mais
de quatrocentos mil desempregados de longa duração, que assim irão constar nas estatísticas ,até
ao fim da vida?
- Falamos dos velhos
esquecidos nas bichas dos hospitais públicos?
- Ou serão os reformados
que acreditaram que o seu futuro estaria acautelado pelo Estado social que lhe
levou o dinheiro e a capacidade de lutar e até de chorar?
- Serão os que deixaram
de acreditar no Estado, na Justiça, elo fundamental numa sociedade e que se
deixou prostituir, castigando os pobres e absolvendo ou ignorando os roubos e
outras malfeitorias dos poderosos? Responda quem quiser.
PS:
Para salientar a
felicidade do dia de hoje, optei por escrever os louvores na língua inglesa.
Admito que assim, o meu agradecimento possa ler lido pelos detentores do poder. Perdoem, ainda assim, o meu atrevimento, a escrita não será muito erudita mas também a
aprendi com quem pouco mais sabe do que eu. Só que eles aparecem na Europa e
até na China, onde vão vender o que resta deste País, destruído.
Acordei pensando para os
meus botões que na data de hoje iria celebrar o Dia D. Mas afinal o meu relógio
estava errado, a cabeça andava mergulhada nos sonhos e antecipara, pelo menos um mês a data do desembarque dos aliados
nas praias da Normandia.
Coisa estranha, ando a
reler um livro sobre a segunda guerra mundial, e é estranho a deriva do meu
pensamento. Afinal o inimigo de outrora, aquele que fora responsável pela morte
de dezenas de milhões de pessoas era o III Reich, e hoje até me custa lembrar que falamos da Alemanha, hoje setenta anos depois é dona da Europa.
As voltas que o mundo dá.
Se hoje se perguntasse a um recém-chegado, pouco ilustrado, quem havia ganho a
II grande guerra, aposto que a resposta seria: foram os aliados. Mas se por
acaso da fortuna o recém-chegado fosse uma pessoa conhecedora e instruída,
desmentiria aquela afirmação e daria uma resposta categórica: - Sem dúvida, foi
a Alemanha a vencedora. E não é que esta opinião configura um veredicto
correto, partilhado para todos os que conseguiram entender o presente,
esquecendo ou omitindo o passado!
Foi para um clube rico que nós, Povo outrora independente, aceitamos sem discutir, transferir o nosso destino. Ficamos iguais nas obrigações mas não nos direitos. Manda quem pode, obedece quem deve, isso já tínhamos aprendido na nossa história recente.
Embriagados pelo dinheiro fácil tudo cedemos e até a nossa dignidade nos deixou. Fomos pobres, continuamos pobres. Este é o nosso fado.
Afinal a minha imaginação levara-me para coisas que não devo comentar. Porque, a realidade meio veio por um programa televisivo que, por entre as notícias e o debate, esclarecido,
do aumento da violência doméstica, sobretudo mas não só, noticia que à
meia-noite havia começado a campanha eleitoral para a eleição dos nossos
representantes no Parlamento Europeu. Aqui está a razão do meu desacerto.
Começa a invasão, não das praias da Normandia, mas das feiras, dos mercados e
mesmo dum pequeno café, algures, no Portugal profundo, por candidatos a,
acompanhantes a, vendedores de ilusões, malabaristas, líderes partidários e
seguranças para defesa da ordem pública.
E o povo está habituado a
este folclore, na verdade não entende a azáfama e o trabalho que esta gente
faz, sacrificando o seu tempo para nos levarem a caminho da mesa de voto. Mas
caros concidadãos perguntem a qualquer candidato o que pensa fazer, e ele dirá
tudo resumindo numa simples palavra: NADA.
Na verdade o Parlamento
Europeu existe apenas para que mais de setecentos deputados se entretenham a dizer umas coisas, quando lá vão, e aguardam que a Alemanha diga o que deve ser feito. Por isso e para evitar confusões
perguntem apenas quanto vão ganhar, os eleitos e os partidos, quais os impostos
que terão de pagar, os serviços de saúde, a reforma, etc, etc e tal, como nós o
que somos chamados a votar, temos de enfrentar em cada dia que passa.
Mas mesmo que saibam não
se atrevam a fazer uma análise custos/benefícios, uma coisa que está na moda. Se
por desafio ao perigo, se aventurarem a procurar uma folha de excel para fazer
esse estudo, chegarão a conclusões que vos irão doer.
Eu não preciso da
campanha eleitoral, sei o resultado. Se nos candidatos encontrasse um “ Beppe
Grillo” que os italianos tiveram a sorte de eleger?
Pergunto: Se um partido
qualquer não ganharia mais, propondo como cabeça de lista o Quim Barreiros, por
exemplo? Pelo menos seria mais autêntico!
Admito ir votar mas com toda a raiva de que for capaz de soltar do meu peito.
E alimento esta dor com a poesia de Antero de Quental.
Divina Comédia
Erguendo os braços para o céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: — «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, N'um turbilhão cruel e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»
Sim, a apresentação do
Primeiro-Ministro, comunicando aos Portugueses, os autênticos e não os vendidos
a interesses espúrios, a decisão sobre a saída LIMPA do programa de ajuda (?)
financeira negociado com a chamada TROIKA foi uma festa linda e eu, confesso
sem vergonha, chorei.
Na verdade estava à
espera de uma maçadoria, (palavra tão erudita e bela, só ao alcance dos grandes
cultores da Língua de Camões) categoria na qual, sem favor, incluo o senhor
Primeiro-Ministro, Senhor Doutor Pedro Passos Coelho, mas ao contrário foi um
momento grande da nossa história.
Atrevo-me até a roubar a ideia do Doutor Paulo
Portas, que irrevogavelmente, como é seu timbre, comparou o anúncio da saída
limpa a um novo ano de 1640.
Foi recuperada e
soberania e os Portugueses podem voltar a dormir descansados, como aliás
fizeram durante a nossa História de mais de oito séculos, escudados na certeza
que alguém amigo nos estenderia a mão. O preço foi, sem surpresa, de um valor
quase simbólico.
Volto, e não é demais, a
sublinhar a qualidade do discurso, ou da declaração, chamam-lhe o quiserem, com
que o Dr. Coelho nos brindou, no anúncio do grande acontecimento. Foi um grande
momento de Televisão.
Já sei que alguns
Portugueses, poucos, acharão que aquele discurso parecia ter sido escrito pela
Chanceler Merkel ou um dos seus habituais conselheiros e que o importante não
foi o que foi dito mas aquilo que se escondeu para se saber qualquer dia. Gente
de má-fé, pois claro. A verdade é só uma e eu ouvi o grande especialista de
tudo e mais alguma coisa, Professor Doutor Marcelo elogiar a qualidade do
produto. Ficamos pois descansados, ou não?
-Não é verdade que o País
está agora melhor do que estava alguns anos atrás?
Os Portugueses, milhões
na pobreza e muitos já na miséria foram os heróis. Aprenderam com o discurso de
qualquer político, ainda que de meia-tigela, característica muito comum, que do
alto do poleiro assegura: Primeiro o País e, só depois, as pessoas.
Reparem do poema que vos
deixo. É dum Poeta quase esquecido, mas que nos lembra muitas coisas de
antigamente e, porque não, alguns dias bem presentes.
MEU
PAÍS DESGRAÇADO
Meu
país desgraçado!...
E
no entanto há sol a cada canto
e
não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem
há céu mais alegre do que o nosso,
nem
pássaros, nem águas…
Meu
país desgraçado!...
Por
que fatal engano?
Que
malévolos crimes
teus
direitos de berço violaram?
Meu Povo
de
cabeça perdida, mãos caídas,
de
olhos sem fé
-
busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a
causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
Que
te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a
sem dó
com
o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te,
Povo
Ah!,
visses tu, nos olhos das mulheres,
a
calada censura
que
te reclama filhos mais robustos!
Povo
anémico e triste,
Meu
Pedro Sem sem forças nem haveres
-
olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha
tuas barcas, tuas forças
e
o direito de amar e fecundar
as
que só por Amor te não desprezam!
(Sebastião
da Gama)
Então, toca de aplaudir,
abanar as orelhas e olhar de frente para o mundo que nos olha cheio de inveja.
Os Portugueses deram uma grande lição. E o melhor até estará para vir. Com
arrojo chegaremos a porto seguro. Seguro? Valha-nos Deus.
Nunca me reconheci na
legião dos que acreditam em bruxas e daqueles que fizeram a sua carreira a
colar cartazes em tempo de eleições.
Não direi, nem me atrevo
sequer a pensar, que sou uma pessoa imune aos fatos, às promessas, às juras e até
às análises convenientemente distorcidas dos escrivães em busca de sustento.
Também reconheço que não
sou avesso a tomar decisões irrevogáveis, porque o tempo em que vivemos (?) nos
troca as voltas de um momento para o outro. Todavia sou um irredimível escravo
da minha liberdade.
Vem esta conversa a
propósito da decisão que o primeiro-ministro Coelho terá que tomar, ouvidas as
pessoas que realmente são importantes neste País em que vivemos, quer dizer os seus amigos, sobre a saída
suja ou limpa do colete-de-forças a que o mercado (?)nos amarrou.
A mim ninguém pediu
opinião, na verdade nem teriam que o fazer, pois que não vivo pendurado nas abas
do casaco de qualquer partido político, tampouco de uma qualquer autarquia, ou
organismo oficial mesmo que muito importante, como aliás são sempre as
organizações, por exemplo, assessor do Palácio de Belém, membro da Maçonaria ou
da Opus Dei, etc.
Mas se, por acaso ou por
exigência de voto das urnas fosse consultado, a minha opção seria de saída
limpa, ou suja, até talvez deslavada ou amarrotada, mantendo-me assim fiel aos
ensinamentos de todos os dias.
Fica assim clara a minha
opção. Tomo banho rápido, porque a Galp precisando de remunerar o capital irá aumentar o
preço do gás e o preço da água quase iguala o preço do vinho a martelo.
Deixarei uma parte do corpo por lavar, não digo qual, pois se a decisão for de
uma saída suja estarei prevenido. E homem prevenido vale por dois.
Esperto foi coisa que
nunca fui, mas ao fim de muitos anos de aprendizagem reconheço a lição fundamental. É preciso jogar em dois tabuleiros, prometer o que se sabe ser uma quimera e fazer o que já foi feito. Assim deveria
ter feito quando no passado não segui o impulso de criar um banco, eu que
trabalhei com tantos e até, vejam lá, aprendi a negociar swaps e outros
instrumentos financeiros. Se o tivesse feito, estaria repimpado num qualquer
paraíso fiscal. Correria o risco de ser apanhado pela Justiça, um risco não
despiciendo, tendo em consideração a maneira célere como neste País se condena o homem que
não pagou a multa de estacionamento ou roubou um pão do supermercado. No meio das dúvidas, das incertezas, da perda de confiança na nossa capacidade para fazer o que deve ser feito, pergunto-me, porquê?
Não sei e por tal cedo a palavra. E escolho a poesia que me ilumina, a arte maior, quando criada por uma notável Poetisa.
PORQUE
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Hesitei em escrever sobre
o dia 25 de Abril de 1974.
Primeiro, porque me lembrei
de que, quarenta anos depois da euforia, dos gritos de liberdade, das
exigências de democracia, das promessas de que o Povo era soberano, acabar
desiludido e vencido.
E a ESPERANÇA que foi a
palavra mágica que o 25 de Abril, a revolução dos cravos, fez nascer vai
morrendo cada dia que passa.
E a minha geração foi também
uma geração mordida pela pobreza, pela educação seletiva, pela obediência aos
superiores interesses da Nação, uma frase muito citada pelos propagandistas do
Estado Novo. Aprendemos nas escolas e nas fileiras da Mocidade Portuguesa a
fazer, como uma imitação das juventudes nazis, o juramento de fidelidade, com o
braço estendido, gritando o nosso dever de servir o País, ou servir Salazar.
Nasci nos anos da segunda
guerra e também aprendi que sob a direção do Salazar, e a bênção da Senhora de
Fátima, Portugal havia escapado aos horrores daquela guerra terrível.
Mas, os sinais do tempo
de mudança começavam e fazer-se sentir. Os trabalhadores começaram a lutar e a
morrer pela defesa dos seus direitos ao pão, educação, saúde, habitação. E com o
início dos anos sessenta, começa a guerra colonial. E o País apesar de só
contra o mundo, e cumprindo as ordens do ditador, marchou para uma guerra de
antemão perdida.
Também eu vesti a farda,
peguei na espingarda, preparei os meus valentes soldados e marchei para a mata
com a promessa dado aos que me seguiam, um pelotão de bravos rapazes arrancados
das suas terras, dos braços da Mãe e ou da mulher, chorando pelos filhos já
nascidos e que receavam não voltar a beijar, de que todos teríamos de voltar.
Foi em meados de 1964 que
o navio nos levou. E as lágrimas dos que ficaram no cais e dos que partiram
para o desconhecido, foram mais umas gotas que se perderam no nosso Tejo, o rio
das nossas mágoas.
Terá valido a pena? Os
milhares de jovens sacrificados na luta por uma causa sem sentido foi um preço
demasiado alto para a defesas dos interesses de alguns, os de sempre.
Mas uma coisa valeu a
pena. Nós os desconhecidos milicianos, que fizemos a guerra, lembrámos aos oficiais
do quadro que nos comandaram, que seriam eles a pagar o preço de uma derrota
inevitável. E de certa maneira foi essa uma das razões para os Capitães
desencadearem o golp, que levou à queda do regime fascista.
Só que, para surpresas de
muitos, no dia 25 de Abril o Povo acordou, encheu as ruas de Lisboa, brindou os
soldados com os cravos vermelhos e tornou o movimento dos Capitães, uma
revolução.
Vivi esse dia de
libertação como quase todos os Portugueses, com incontidas lágrimas de alegria.
E hoje, porque me sinto
vencido e desesperançado?
A revolução dos cravos
trouxe mudanças, transformou um País de analfabetos, permitiu a criação do
Estado Social que fosse pertença de todos e onde todos se encontrassem. E
trouxe, acima de tudo a LIBERDADE.
Mas nada resiste ao
ataque mais mortífero desencadeado pelo poder do dinheiro. Os mercados, esse monstro
que não se deixa ver mas que existe e tem milhares de servos ao seu dispor não
esquece.
Para ajudar deixamos que o
canto das sereias nos hipnotizasse. Foi a adesão CEE e a convicção que todos
seriam iguais num espaço único, que nos levou ao abismo.
Muitos enriqueceram,
muitos mais roubaram e tudo lhes tem sido perdoado.
Afinal, lembro o que o
disse o recentemente falecido Gabriel Garcia Marques:
“ Portugal está condenado
a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do Mundo”.
Foi uma verdade profética
e que só pecou por defeito. É que hoje, quarenta anos depois da esperança, Portugal
pobre senta-se à mesa, comendo as migalhas e obedecendo com respeito e
admiração às ordens superiores.
Foi aqui que chegamos?
Milhões de pobres e
outros a caminho, em cada esquina deixamos de ver um amigo e passámos e
encontrar um sem-abrigo, centenas de milhares de jovens que tiveram que
emigrar, velhos empurrados para a linha de partida.
A flor que enfeitou as
armas dos militares que no dia 25 deste mesmo mês, no já longínquo ano de 1974,
murchou e a liberdade transformou-se. A esperança, essa morreu. A liberdade tem um preço, que nós
esquecemos. Mas que teremos de pagar.
Os cobradores são
conhecidos, mas os patrões, os detentores do grande capital não têm rosto, nem
pátria, nem alma. Mas utilizam os diligentes serventuários, que no dicionário
do Povo, se chamam políticos, (com letra minúscula, já se vê). E eles cumprem
as ordens recebendo os trinta dinheiros de qualquer Judas.
E o Povo que lhe estendeu
o tapete para o caminho da fortuna, pagará pela fome, pela desistência, pela
amargura, pela negação dos seus direitos. Naturalmente há exceções, em Portugal
não é assim. Porque somos um Povo de brandos costumes que estende a mão a quem
lhe tira o pão e rouba a esperança. Somos da verdade um Povo que chora mas que
não tem força nem vontade de lutar.
Sabendo isso, os
cobradores fazem fila empurrando-se para se chegarem ao tacho, dê por onde der,
enganando este mundo e o outro, atraiçoando os ideais e as promessas que em vão
fizeram. Escondem ao que vêm. Os mais afoitos gritam promessas, que depressa
esquecerão na poeira do caminho. Para que tudo dê certo, fazem-se eleições,
mudam-se as pessoas e tudo acabará por ficar na mesma. Os negócios continuam,
apenas haverá uma mudança de ciclo.
No meio, onde sempre
esteve, ficará o Povo. Os vampiros continuarão a sua tarefa.
NÃO PASSARÃO, gritou o Poeta, mas o Povo não ouviu.
NÃO PASSARÃO
Não desesperes, Mãe!
O
último triunfo é interdito Aos
heróis que o não são, Lembra-te
do teu grito: Não
passarão!
Não
passarão!
Só
mesmo se parasse o coração Que
te bate no peito. Só
mesmo se pudesse haver sentido Entre
o sangue vertido E
o sonho desfeito.
Só
mesmo se a raiz bebesse em lodo
De
traição e de crime. Só
mesmo se não fosse o mundo todo Que
na tua tragédia se redime.
Não
passarão!
Arde
a seara, mas dum simples grão Nasce
o trigal de novo. Morrem
filhos e filhas da nação. Não
morre um Povo!
Não
passarão! Seja
qual for a fúria da agressão, As
forças que te querem jugular Não
poderão passar Sobre
a dor infinita desse não Que
a terra inteira ouviu E
repetiu: Não
passarão!