Hesitei em escrever sobre
o dia 25 de Abril de 1974.
Primeiro, porque me lembrei
de que, quarenta anos depois da euforia, dos gritos de liberdade, das
exigências de democracia, das promessas de que o Povo era soberano, acabar
desiludido e vencido.
E a ESPERANÇA que foi a
palavra mágica que o 25 de Abril, a revolução dos cravos, fez nascer vai
morrendo cada dia que passa.
E a minha geração foi também
uma geração mordida pela pobreza, pela educação seletiva, pela obediência aos
superiores interesses da Nação, uma frase muito citada pelos propagandistas do
Estado Novo. Aprendemos nas escolas e nas fileiras da Mocidade Portuguesa a
fazer, como uma imitação das juventudes nazis, o juramento de fidelidade, com o
braço estendido, gritando o nosso dever de servir o País, ou servir Salazar.
Nasci nos anos da segunda
guerra e também aprendi que sob a direção do Salazar, e a bênção da Senhora de
Fátima, Portugal havia escapado aos horrores daquela guerra terrível.
Mas, os sinais do tempo
de mudança começavam e fazer-se sentir. Os trabalhadores começaram a lutar e a
morrer pela defesa dos seus direitos ao pão, educação, saúde, habitação. E com o
início dos anos sessenta, começa a guerra colonial. E o País apesar de só
contra o mundo, e cumprindo as ordens do ditador, marchou para uma guerra de
antemão perdida.
Também eu vesti a farda,
peguei na espingarda, preparei os meus valentes soldados e marchei para a mata
com a promessa dado aos que me seguiam, um pelotão de bravos rapazes arrancados
das suas terras, dos braços da Mãe e ou da mulher, chorando pelos filhos já
nascidos e que receavam não voltar a beijar, de que todos teríamos de voltar.
Foi em meados de 1964 que
o navio nos levou. E as lágrimas dos que ficaram no cais e dos que partiram
para o desconhecido, foram mais umas gotas que se perderam no nosso Tejo, o rio
das nossas mágoas.
Terá valido a pena? Os
milhares de jovens sacrificados na luta por uma causa sem sentido foi um preço
demasiado alto para a defesas dos interesses de alguns, os de sempre.
Mas uma coisa valeu a
pena. Nós os desconhecidos milicianos, que fizemos a guerra, lembrámos aos oficiais
do quadro que nos comandaram, que seriam eles a pagar o preço de uma derrota
inevitável. E de certa maneira foi essa uma das razões para os Capitães
desencadearem o golp, que levou à queda do regime fascista.
Só que, para surpresas de
muitos, no dia 25 de Abril o Povo acordou, encheu as ruas de Lisboa, brindou os
soldados com os cravos vermelhos e tornou o movimento dos Capitães, uma
revolução.
Vivi esse dia de
libertação como quase todos os Portugueses, com incontidas lágrimas de alegria.
E hoje, porque me sinto
vencido e desesperançado?
A revolução dos cravos
trouxe mudanças, transformou um País de analfabetos, permitiu a criação do
Estado Social que fosse pertença de todos e onde todos se encontrassem. E
trouxe, acima de tudo a LIBERDADE.
Mas nada resiste ao
ataque mais mortífero desencadeado pelo poder do dinheiro. Os mercados, esse monstro
que não se deixa ver mas que existe e tem milhares de servos ao seu dispor não
esquece.
Para ajudar deixamos que o
canto das sereias nos hipnotizasse. Foi a adesão CEE e a convicção que todos
seriam iguais num espaço único, que nos levou ao abismo.
Muitos enriqueceram,
muitos mais roubaram e tudo lhes tem sido perdoado.
Afinal, lembro o que o
disse o recentemente falecido Gabriel Garcia Marques:
“ Portugal está condenado
a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do Mundo”.
Foi uma verdade profética
e que só pecou por defeito. É que hoje, quarenta anos depois da esperança, Portugal
pobre senta-se à mesa, comendo as migalhas e obedecendo com respeito e
admiração às ordens superiores.
Foi aqui que chegamos?
Milhões de pobres e
outros a caminho, em cada esquina deixamos de ver um amigo e passámos e
encontrar um sem-abrigo, centenas de milhares de jovens que tiveram que
emigrar, velhos empurrados para a linha de partida.
Será este o País de Abril
que sonhamos?
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