sábado, 3 de maio de 2014

SAÍDA LIMPA, SUJA OU ASSIM ASSIM





 

Nunca me reconheci na legião dos que acreditam em bruxas e daqueles que fizeram a sua carreira a colar cartazes em tempo de eleições.

Não direi, nem me atrevo sequer a pensar, que sou uma pessoa imune aos fatos, às promessas, às juras e até às análises convenientemente distorcidas dos escrivães em busca de sustento.

Também reconheço que não sou avesso a tomar decisões irrevogáveis, porque o tempo em que vivemos (?) nos troca as voltas de um momento para o outro. Todavia sou um irredimível escravo da minha liberdade.

Vem esta conversa a propósito da decisão que o primeiro-ministro Coelho terá que tomar, ouvidas as pessoas que realmente são importantes neste País em que vivemos, quer dizer os seus amigos, sobre a saída suja ou limpa do colete-de-forças a que o mercado (?)nos amarrou.

A mim ninguém pediu opinião, na verdade nem teriam que o fazer, pois que não vivo pendurado nas abas do casaco de qualquer partido político, tampouco de uma qualquer autarquia, ou organismo oficial mesmo que muito importante, como aliás são sempre as organizações, por exemplo, assessor do Palácio de Belém, membro da Maçonaria ou da Opus Dei, etc. 

Mas se, por acaso ou por exigência de voto das urnas fosse consultado, a minha opção seria de saída limpa, ou suja, até talvez deslavada ou amarrotada, mantendo-me assim fiel aos ensinamentos de todos os dias.

Fica assim clara a minha opção. Tomo banho rápido, porque a Galp precisando de remunerar o capital irá aumentar o preço do gás e o preço da água quase iguala o preço do vinho a martelo. Deixarei uma parte do corpo por lavar, não digo qual, pois se a decisão for de uma saída suja estarei prevenido. E homem prevenido vale por dois.

Esperto foi coisa que nunca fui, mas ao fim de muitos anos de aprendizagem reconheço a lição fundamental. É  preciso jogar em dois tabuleiros, prometer o que se sabe ser uma quimera e fazer o que já foi feito.  Assim deveria ter feito quando no passado não segui o impulso de criar um banco, eu que trabalhei com tantos e até, vejam lá, aprendi a negociar swaps e outros instrumentos financeiros. Se o tivesse feito, estaria repimpado num qualquer paraíso fiscal. Correria o risco de ser apanhado pela Justiça, um risco não despiciendo, tendo em consideração a maneira célere como neste País se  condena o homem que não pagou a multa de estacionamento ou roubou um pão do supermercado.
No meio das dúvidas, das incertezas, da perda de confiança na nossa capacidade para fazer o que deve ser feito, pergunto-me, porquê?

Não sei e por tal cedo a palavra.  E escolho a poesia que me ilumina, a arte maior, quando criada por uma notável Poetisa.

                                                PORQUE
                        Porque os outros se mascaram mas tu não
                        Porque os outros usam a virtude
                        Para comprar o que não tem perdão.
                        Porque os outros têm medo mas tu não.

                       Porque os outros são os túmulos caiados
                       Onde germina calada a podridão.
                       Porque os outros se calam mas tu não.

                       Porque os outros se compram e se vendem
                       E os seus gestos dão sempre dividendo.
                       Porque os outros são hábeis mas tu não.

                      Porque os outros vão à sombra dos abrigos
                      E tu vais de mãos dadas com os perigos.
                      Porque os outros calculam mas tu não.

                     (Sophia de Mello Breyner Andresen)


 

 

 







 

2 comentários:

  1. É por isso que gosto cada vez mais da poesia e dos poetas.... Neles, encontramos sequer uma resposta, quando aqueles que nos governam (ou desgovernanm?) há muito deixaram de responder ao quer que seja.
    Cristina

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    1. Será por isso que a poesia é uma arma carregada de futuro, como escreveu Gabriel Celaya. Mas a poesia comprometida.

      LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO

      Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
      mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
      fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
      como un pulso que golpea las tinieblas,

      cuando se miran de frente
      los vertiginosos ojos claros de la muerte,
      se dicen las verdades:
      las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

      Se dicen los poemas
      que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
      piden ser, piden ritmo,
      piden ley para aquello que sienten excesivo.

      Con la velocidad del instinto,
      con el rayo del prodigio,
      como mágica evidencia, lo real se nos convierte
      en lo idéntico a sí mismo.

      Poesía para el pobre, poesía necesaria
      como el pan de cada día,
      como el aire que exigimos trece veces por minuto,
      para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

      Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
      decir que somos quien somos,
      nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
      Estamos tocando el fondo.

      Maldigo la poesía concebida como un lujo
      cultural por los neutrales
      que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
      Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

      Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
      y canto respirando.
      Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
      personales, me ensancho.

      Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
      y calculo por eso con técnica qué puedo.
      Me siento un ingeniero del verso y un obrero
      que trabaja con otros a España en sus aceros.

      Tal es mi poesía: poesía-herramienta
      a la vez que latido de lo unánime y ciego.
      Tal es, arma cargada de futuro expansivo
      con que te apunto al pecho.

      No es una poesía gota a gota pensada.
      No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
      Es algo como el aire que todos respiramos
      y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

      Son palabras que todos repetimos sintiendo
      como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
      Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
      Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

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