Nunca me reconheci na
legião dos que acreditam em bruxas e daqueles que fizeram a sua carreira a
colar cartazes em tempo de eleições.
Não direi, nem me atrevo
sequer a pensar, que sou uma pessoa imune aos fatos, às promessas, às juras e até
às análises convenientemente distorcidas dos escrivães em busca de sustento.
Também reconheço que não
sou avesso a tomar decisões irrevogáveis, porque o tempo em que vivemos (?) nos
troca as voltas de um momento para o outro. Todavia sou um irredimível escravo
da minha liberdade.
Vem esta conversa a
propósito da decisão que o primeiro-ministro Coelho terá que tomar, ouvidas as
pessoas que realmente são importantes neste País em que vivemos, quer dizer os seus amigos, sobre a saída
suja ou limpa do colete-de-forças a que o mercado (?)nos amarrou.
A mim ninguém pediu
opinião, na verdade nem teriam que o fazer, pois que não vivo pendurado nas abas
do casaco de qualquer partido político, tampouco de uma qualquer autarquia, ou
organismo oficial mesmo que muito importante, como aliás são sempre as
organizações, por exemplo, assessor do Palácio de Belém, membro da Maçonaria ou
da Opus Dei, etc.
Mas se, por acaso ou por
exigência de voto das urnas fosse consultado, a minha opção seria de saída
limpa, ou suja, até talvez deslavada ou amarrotada, mantendo-me assim fiel aos
ensinamentos de todos os dias.
Fica assim clara a minha
opção. Tomo banho rápido, porque a Galp precisando de remunerar o capital irá aumentar o
preço do gás e o preço da água quase iguala o preço do vinho a martelo.
Deixarei uma parte do corpo por lavar, não digo qual, pois se a decisão for de
uma saída suja estarei prevenido. E homem prevenido vale por dois.
Esperto foi coisa que
nunca fui, mas ao fim de muitos anos de aprendizagem reconheço a lição fundamental. É preciso jogar em dois tabuleiros, prometer o que se sabe ser uma quimera e fazer o que já foi feito. Assim deveria
ter feito quando no passado não segui o impulso de criar um banco, eu que
trabalhei com tantos e até, vejam lá, aprendi a negociar swaps e outros
instrumentos financeiros. Se o tivesse feito, estaria repimpado num qualquer
paraíso fiscal. Correria o risco de ser apanhado pela Justiça, um risco não
despiciendo, tendo em consideração a maneira célere como neste País se condena o homem que
não pagou a multa de estacionamento ou roubou um pão do supermercado.
No meio das dúvidas, das incertezas, da perda de confiança na nossa capacidade para fazer o que deve ser feito, pergunto-me, porquê?
Não sei e por tal cedo a palavra. E escolho a poesia que me ilumina, a arte maior, quando criada por uma notável Poetisa.
PORQUE
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
No meio das dúvidas, das incertezas, da perda de confiança na nossa capacidade para fazer o que deve ser feito, pergunto-me, porquê?
Não sei e por tal cedo a palavra. E escolho a poesia que me ilumina, a arte maior, quando criada por uma notável Poetisa.
PORQUE
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
É por isso que gosto cada vez mais da poesia e dos poetas.... Neles, encontramos sequer uma resposta, quando aqueles que nos governam (ou desgovernanm?) há muito deixaram de responder ao quer que seja.
ResponderEliminarCristina
Será por isso que a poesia é uma arma carregada de futuro, como escreveu Gabriel Celaya. Mas a poesia comprometida.
EliminarLA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO
Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
como un pulso que golpea las tinieblas,
cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.
Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.
Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.
Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.
Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.
Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.
Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.
Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.