sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 DE ABRIL. ESPERANÇA TRAÍDA?


Hesitei em escrever sobre o dia 25 de Abril de 1974.

Primeiro, porque me lembrei de que, quarenta anos depois da euforia, dos gritos de liberdade, das exigências de democracia, das promessas de que o Povo era soberano, acabar desiludido e vencido.

E a ESPERANÇA que foi a palavra mágica que o 25 de Abril, a revolução dos cravos, fez nascer vai morrendo cada dia que passa.

E a minha geração foi também uma geração mordida pela pobreza, pela educação seletiva, pela obediência aos superiores interesses da Nação, uma frase muito citada pelos propagandistas do Estado Novo. Aprendemos nas escolas e nas fileiras da Mocidade Portuguesa a fazer, como uma imitação das juventudes nazis, o juramento de fidelidade, com o braço estendido, gritando o nosso dever de servir o País, ou servir Salazar.

Nasci nos anos da segunda guerra e também aprendi que sob a direção do Salazar, e a bênção da Senhora de Fátima, Portugal havia escapado aos horrores daquela guerra terrível.

Mas, os sinais do tempo de mudança começavam e fazer-se sentir. Os trabalhadores começaram a lutar e a morrer pela defesa dos seus direitos ao pão, educação, saúde, habitação. E com o início dos anos sessenta, começa a guerra colonial. E o País apesar de só contra o mundo, e cumprindo as ordens do ditador, marchou para uma guerra de antemão perdida.

Também eu vesti a farda, peguei na espingarda, preparei os meus valentes soldados e marchei para a mata com a promessa dado aos que me seguiam, um pelotão de bravos rapazes arrancados das suas terras, dos braços da Mãe e ou da mulher, chorando pelos filhos já nascidos e que receavam não voltar a beijar, de que todos teríamos de voltar.

Foi em meados de 1964 que o navio nos levou. E as lágrimas dos que ficaram no cais e dos que partiram para o desconhecido, foram mais umas gotas que se perderam no nosso Tejo, o rio das nossas mágoas.

Terá valido a pena? Os milhares de jovens sacrificados na luta por uma causa sem sentido foi um preço demasiado alto para a defesas dos interesses de alguns, os de sempre.

Mas uma coisa valeu a pena. Nós os desconhecidos milicianos, que fizemos a guerra, lembrámos aos oficiais do quadro que nos comandaram, que seriam eles a pagar o preço de uma derrota inevitável. E de certa maneira foi essa uma das razões para os Capitães desencadearem o golp, que levou à queda do regime fascista.

Só que, para surpresas de muitos, no dia 25 de Abril o Povo acordou, encheu as ruas de Lisboa, brindou os soldados com os cravos vermelhos e tornou o movimento dos Capitães, uma revolução.

Vivi esse dia de libertação como quase todos os Portugueses, com incontidas lágrimas de alegria.

E hoje, porque me sinto vencido e desesperançado?

A revolução dos cravos trouxe mudanças, transformou um País de analfabetos, permitiu a criação do Estado Social que fosse pertença de todos e onde todos se encontrassem. E trouxe, acima de tudo a LIBERDADE.

Mas nada resiste ao ataque mais mortífero desencadeado pelo poder do dinheiro. Os mercados, esse monstro que não se deixa ver mas que existe e tem milhares de servos ao seu dispor não esquece.

Para ajudar deixamos que o canto das sereias nos hipnotizasse. Foi a adesão CEE e a convicção que todos seriam iguais num espaço único, que nos levou ao abismo.

Muitos enriqueceram, muitos mais roubaram e tudo lhes tem sido perdoado.

Afinal, lembro o que o disse o recentemente falecido Gabriel Garcia Marques:

“ Portugal está condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do Mundo”.

Foi uma verdade profética e que só pecou por defeito. É que hoje, quarenta anos depois da esperança, Portugal pobre senta-se à mesa, comendo as migalhas e obedecendo com respeito e admiração às ordens superiores.

Foi aqui que chegamos?

Milhões de pobres e outros a caminho, em cada esquina deixamos de ver um amigo e passámos e encontrar um sem-abrigo, centenas de milhares de jovens que tiveram que emigrar, velhos empurrados para a linha de partida.

Será este o País de Abril que sonhamos?

sexta-feira, 11 de abril de 2014

AQUELE DISTANTE MÊS DE ABRIL


Hoje é Abril. O mês dos cravos e da esperança.

A flor que enfeitou as armas dos militares que no dia 25 deste mesmo mês, no já longínquo ano de 1974, murchou e a liberdade transformou-se. A esperança, essa morreu.
 A liberdade tem um preço, que nós esquecemos. Mas que teremos de pagar.
 
 
 
Os cobradores são conhecidos, mas os patrões, os detentores do grande capital não têm rosto, nem pátria, nem alma. Mas utilizam os diligentes serventuários, que no dicionário do Povo, se chamam políticos, (com letra minúscula, já se vê). E eles cumprem as ordens recebendo os trinta dinheiros de qualquer Judas.

E o Povo que lhe estendeu o tapete para o caminho da fortuna, pagará pela fome, pela desistência, pela amargura, pela negação dos seus direitos. Naturalmente há exceções, em Portugal não é assim. Porque somos um Povo de brandos costumes que estende a mão a quem lhe tira o pão e rouba a esperança. Somos da verdade um Povo que chora mas que não tem força nem vontade de lutar.

Sabendo isso, os cobradores fazem fila empurrando-se para se chegarem ao tacho, dê por onde der, enganando este mundo e o outro, atraiçoando os ideais e as promessas que em vão fizeram. Escondem ao que vêm. Os mais afoitos gritam promessas, que depressa esquecerão na poeira do caminho. Para que tudo dê certo, fazem-se eleições, mudam-se as pessoas e tudo acabará por ficar na mesma. Os negócios continuam, apenas haverá uma mudança de ciclo.

No meio, onde sempre esteve, ficará o Povo. Os vampiros continuarão a sua tarefa.
 
 
 
 

NÃO PASSARÃO, gritou o Poeta, mas o Povo não ouviu.

                                      NÃO PASSARÃO

                                   Não desesperes, Mãe!
                                   O último triunfo é interdito
                                   Aos heróis que o não são,
                                   Lembra-te do teu grito:
                                   Não passarão!

                                  Não passarão!
                                  Só mesmo se parasse o coração
                                  Que te bate no peito.
                                  Só mesmo se pudesse haver sentido
                                  Entre o sangue vertido
                                  E o sonho desfeito.

                                 Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
                                 De traição e de crime.
                                 Só mesmo se não fosse o mundo todo
                                 Que na tua tragédia se redime.

                                 Não passarão!
                                 Arde a seara, mas dum simples grão
                                 Nasce o trigal de novo.
                                 Morrem filhos e filhas da nação.
                                 Não morre um Povo!

                                 Não passarão!
                                 Seja qual for a fúria da agressão,
                                 As forças que te querem jugular
                                 Não poderão passar
                                 Sobre a dor infinita desse não
                                 Que a terra inteira ouviu
                                 E repetiu:

                                 Não passarão!

                                (MIGUEL TORGA)

 
 

sábado, 5 de abril de 2014

É HORA !



NEVOEIRO

 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer-

Brilho sem luz e sem arder,

Como se o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem.

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

 

É a Hora!

(FERNANDO PESSOA)

 

 

Era, ainda é, hora de partir, de deixar o nevoeiro em que nos perdemos.

Tem sido esse, de novo, o caminho de dezenas de milhares de Portugueses, que um País sem lei tem obrigado a calcorrear.

Culpa nossa, certamente, porque acreditamos numa utopia. Sim a Europa e a moeda única foram o sonho que se transformou num pesadelo.

E esta língua de terra, QUE UM RIO DE LÁGRIMAS, escolheu para encontrar o mar, foi ficando mais pobre e triste. Partiram sobretudo os jovens, lutando pelo futuro que lhe foi negado, na terra que os viu nascer.

Com eles foram os nossos sonhos, a nossa tristeza e nossa dor e ficou o nosso triste fado.  


 

Voltarão um dia?

 

 

 

Pelo menos um regressará de certeza. Gordo e anafado, depois de com o seu inegável talento ter liderado uma Sociedade Anónima, conhecida como Comissão Europeia, e ter sido um dos responsáveis pela insignificância a que a Europa se remeteu.

E faz bem em regressar, pois neste País de brandos costumes é fácil esquecer e perdoar mesmo aos que desertaram, e um lugar de importância, com alguma visibilidade e pouca responsabilidade, será um ótimo refúgio para férias passeando ali pelos lados de Belém, convivendo com os seus camaradas entretanto reformados das lides governativas, gozando do merecido descanso, enquanto Administradores não executivos de uma qualquer multinacional Chinesa.  

E o povo ficará eternamente agradecido.